A estrutura da antiga igreja matriz de Caria no século XVII

Preâmbulo

Esta imagem inicial é uma reconstituição imaginada do interior da igreja de Caria antes das obras de 1701.

Todos os detalhes são fruto da imaginação, mas, como irei explicar de seguida, há boas razões para supor que a disposição dos altares, do púlpito, batistério, cadeiras, fosse próxima da que aqui é apresentada.

A produção desta imagem, elaborada com o apoio de aplicações de Inteligência Artificial foi bastante demorada e apenas terminada com a ajuda de alguma edição manual por parte do meu filho João Moura, a quem agradeço.

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Já abordei numa publicação anterior as obras de reconstrução da nossa igreja matriz, em particular da capela-mor integrando o altar-mor, que terão terminado em 1701. Presume-se que desde essa data não tenham ocorrido obras significativas nesse espaço. Quanto a obras no corpo principal da igreja, não possuo informação. Mas, com base nos registos de óbito, os quais nos séculos XVII indicam frequentemente onde foi feito o enterramento no interior da igreja, percebemos que no período anterior a 1701 teria uma organização bastante diferente da atual. O professor António Borges [1] no seu livro “A última vontade”, faz também referências a algumas dessas indicações. Procurarei mostrar a análise que me foi possível fazer, a qual como seria de esperar dá-nos algumas informações “certas”, mas igualmente nos deixa diversas dúvidas. No seu conjunto, penso que vale a pena o exercício e mais esta “viagem no tempo”…

 

Abordagem

Apresento apenas registos anteriores a 1701, pelas razões que expus. É provável que as obras de reconstrução dessa época tenham afetado a estrutura da igreja. Por exemplo, logo a 19/12/1708, no registo de óbito de Feliciana Tavares, são referidos dois altares que parece não existirem antes.

Vou referir registos não pela ordem cronológica, mas por uma ordem que, na minha opinião, ajuda a compor as “peças” deste “quebra-cabeça”.

A seguir à apresentação dos registos apresento a possível planta da igreja que deles decorrem. Temos bastante certeza da maior parte das localizações, mas em alguns casos surgem dúvidas que serão assinaladas.

Por último, com base em outras publicações, tentarei esclarecer o significado de algumas referências.

 

Data do óbito

Nome

Notas -Transcrições

Conclusão

9/10/1650

Domingos Fernandes Luís

Jaz sepultado dentro da igreja matriz, junto às grades da pia batismal.

Pia batismal tem uma grade em volta

2/7/1641

Maria

Está enterrada na igreja matriz, [junto] às grades do batistério em entrando à porta principal à mão esquerda.

A pia batismal ficava à esquerda quando se entrava.

12/7/1642

Isabel Pires

Sepultada na igreja debaixo das grades do púlpito

Havia um púlpito que tinha grades (varanda)

30/9/1641

João Domingues

Está enterrado na igreja matriz no meio dela [entre] o púlpito e a coluna da porta do sol.

O púlpito estaria sensivelmente à frente da porta do sol, mas tendo uma coluna de permeio.

28/3/1646

Domingos Fernandes

Está sepultado dentro da igreja, junto ao arco cruzeiro, para a parte do altar das almas.

O arco cruzeiro é o arco que separa a capela-mor do corpo principal. O altar das almas estaria logo no topo esquerdo ou direito.

20/7/1642

Bartolomeu

Sepultado na igreja, no meio, junto ao pilar do altar das almas.

Há um pilar ao pé do altar das almas

13/5/1643

Francisco Antunes

Está sepultado dentro, junto à parede entre o altar das almas e a porta do sol.

A porta do sol é do lado nascente, pelo que o altar das almas é desse lado. Não há altar entre esses dois espaços.

15/1/1647

Maria Domingues

Está sepultada entre o pilar da Porta do Sol e os degraus do altar das almas.

Há um pilar em frente à porta do sol. O altar das almas tem degraus.

8/9/1640

Manuel Gonçalves Estrelado

Está enterrado na igreja matriz por cima do pilar fundeiro [da mão esquerda, digo da mão direita por baixo dos [degraus] da porta do sol.

O pilar fundeiro seria mais para o fundo da igreja, ou seja, para a esquerda para quem entrasse na porta do sol. A porta do sol tem degraus.

7/2/1644

Maria Miguel

Está sepultada dentro da igreja, junto ao [peão] e coluna fundeira da porta do sol.

Para tentar esclarecer

27/6/1641

Domingos Cordeiro

Está enterrado na igreja matriz de Nossa Senhora deste dito lugar junto ao cruzeiro pegado com os [degraus] do altar da Senhora.

Junto ao cruzeiro será arco cruzeiro… o Altar da Senhora será do lado poente, pois a nascente era o das Almas. E, como o das almas, tem degraus.

27/2/1645

[…]

Está enterrado dentro, entre o altar da Senhora e o altar do Nome de Jesus.

O altar do nome de Jesus a seguir ao da Senhora, ou seja, de certa forma oposto à Porta do Sol.

17/2/1651

Simão Álvares

Foi sepultado dentro da igreja por cima do púlpi[to] junto ao altar da Senhora.

Por cima do púlpito junto ao altar da senhora. Confirma referências anteriores.

17/9/1695

Ana Branca

... ordenou se lhe fizesse bem de sua alma e se lhe dissessem ... mais quatro missas a Nossa Sra do Rosário no seu altar, duas a nossa Senhora no altar mor uma a S. Bartolomeu, outra ao anjo da guarda, outra a S. Ana, quatro missas pela alma de sua irmã Catarina, duas no altar mor e duas no altar da Senhora ...

O altar da Senhora, seria da Senhora do Rosário

15/4/1639

Maria Martins

(texto com tinta trespassada da outra face - muito difícil de ler)
Sem fazer testamento. Está sepultada na igreja matriz na última coluna da parte do [Cristo à] porta principal.

Parte do [Cristo]. Haveria um crucifixo perto da porta principal?

25/.../1645

Francisco João "o carneiro"

Está sepultado dentro, entre a porta principal e a coluna da [mão] direita.

Havia duas fiadas de colunas

22/4/1646

Ambrósio Lourenço

Está sepultado dentro da igreja, no meio dela, entre as duas colunas cimeiras.

Duas fiadas… colunas cimeiras
Temos colunas cimeira, mais perto do altar mor, colunas fundeiras, perto da porta principal. A meio, temos a coluna do púlpito e a coluna da Porta do sol.

12/6/1631

Maria Domingues

(texto com tinta trespassada da outra face - muito difícil de ler)
... sepultada na igreja matriz [abaixo] do altar de São Sebastião.

Altar de S. Sebastião… onde seria?

26/4/1641

Maria Gomes

… está enterrada dentro da igreja… abaixo do caixão do Senhor para a torre dos Signos.

Abaixo do caixão do Senhor. Onde ficaria? para o lado da torre dos sinos… Parece que este caixão está no canto junto à torre dos sinos. Já vimos que a Pia batismal estaria no canto esquerdo quando se entrava. Apenas o canto direito teria espaço disponível para colocar caixões. A torre dos sinos teria a mesma localização atual.
Haveria um "Altar do Senhor"? Seria o "Altar do Nome de Jesus"?

15/8/1640

Manuel Fernandes o padeiro

… Está enterrado na igreja matriz debaixo do caixão de Nossa Senhora.

Haveria uma plataforma (?) com o caixão da confraria de Nossa Senhora. Onde ficaria?

3/9/1641

Brites Antunes a Paiva

Está enterrada na igreja… debaixo do Caixão do Santíssimo Sacramento.

Caixão do Santíssimo Sacramento… Idem.

29/3/1642

Simão Gonçalves

Está sepultado na igreja, ao redor da parede abaixo do Caixão do Senhor.

Caixão do Senhor estaria junto à parede

20/1/1643

Isabel João

Está sepultada no meio da igreja, para a parte do caixão do nome de Jesus.

Caixão do Senhor e do Nome de Jesus parecem ser diferentes - ver anterior. Este caixão parece estar próximo do meio. Talvez em frente ao respetivo altar…

8/6/1643

João Fernandes

Está sepultado dentro da igreja, no meio dela, para a parte do Caixão de Nossa Senhora.

No meio, para o lado do caixão de Nossa Senhora…
Este caixão parece estar próximo do meio. Talvez em frente ao respetivo altar…

30/10/1658

Catarina Lourenço

Foi sepultada dentro da igreja, debaixo do caixão da Senhora do Rosário.

Confraria da Senhora, seria mais especificamente, da Senhora do Rosário

12/6/1643

Domingos Pires da praça

Está sepultado dentro, junto ao caixão da Confraria das almas.

Caixão da confraria das almas… Onde ficaria?

25/10/1657

Isabel [Fernandes]

Está sepultada dentro da igreja, debaixo do caixão do Senhor.

Na maior parte das vezes o enterramento é "junto", mas por vezes é "debaixo", o que pressupõe que os caixões estavam numa plataforma, a qual contudo devia ser fixa para que estas referências fossem "certas".

3/11/1653

Helena Esteves […]

Foi sepultada dentro da igreja, junto ao assento do Caixão da Confraria das Almas.

Os caixões teriam um assento…

24/6/1645

Isabel Francisca

Seu corpo está sepultado dentro da igreja, em o canto por baixo do caixão do azeite da Confraria do Senhor.

Um Caixão específico para azeite da Confraria do Senhor.
Parece estar no canto da igreja. Ao pé da torre dos sinos?

11/10/1646

Maria Miguel

Está sepultada dentro da igreja, junto aos bancos fundeiros, ao pé do Caixão das Almas.

O caixão as almas estava ao fundo da igreja; Nem todos os caixões não estão em frente aos altares…
Havia bancos!

 

Com base nestas descrições, apresento na imagem seguinte uma possível organização dos espaços da igreja.

Chamo a atenção para as setas amarelas. Pretendem indicar aproximadamente, na sua origem, o ponto de observação para se obter a imagem inicial. O campo de visão corresponde ao ângulo formado pelas setas.

Apenas um caixão fica visível, da Confraria do Santo Nome de Jesus.

Identifico duas dúvidas principais:

·       A localização da maioria dos “caixões”; Note-se que nestas épocas os enterramentos eram feitos na igreja e quase nunca os corpos eram enterrados em caixões, para reduzir o espaço ocupado. Eram simplesmente envoltos num pano. As confrarias disponibilizavam aos confrades o seu caixão, o qual era levado a casa do falecido. O velório era depois feito com o corpo no caixão e naturalmente era nele transportado até à igreja, onde se procediam às exéquias, até que, no final o corpo “descia à terra” e o caixão regressava ao seu local inicial.
Em algumas descrições dos registos de óbito, surgem referências que apontam para que estejam em frente ao altar da respetiva confraria e nesses casos aí os representei. Porém sobre a maioria a localização não é indicada. Alguns caixões são referidos como estando do lado da torre dos sinos. Assumi por isso que era nesse canto que a maioria se localizaria.
Note-se que surge referido um “caixão de azeite”, o que pressupõe que nem todos os caixões eram usados para levar o corpo do falecido.

Para quem tenha curiosidade em ter uma perspetiva mais completa e detalhada da forma como eram conduzidas as cerimónias fúnebres, recomendo a leitura do livro A última vontade [1], do professor António Borges.

·       A localização do altar de São Sebastião; A posição em que o coloquei resultou de exclusão de partes. Tendo em conta as diversas localizações, o espaço entre o “Altar do Senhor” e a grade da pia batismal era o único espaço livre.

Tendo em conta a proposta de organização da igreja e as explicações acabadas de fazer, será útil entender que confrarias havia em Caria nesta época.

As dinâmicas das confrarias dependiam muito da maior ou menor capacidade financeira e iniciativa dos seus responsáveis, donde resultavam diferentes receitas, como sejam os pagamentos em dinheiro e bens dos confrades bem como de donativos de diversos tipos. As confrarias variavam por isso muito no número e tipo de devotos e respetivos “cabedais”. Podiam durar séculos ou não sobreviver a alguns poucos anos. 

Não tenho informações detalhadas sobre a evolução das confrarias em Caria ao longo do tempo.

Tendo apenas em conta as referências de ofertas, explicitamente dadas às confrarias, na sua grande maioria em cereais, por exemplo em moios de trigo ou centeio, ou também dinheiro, ao longo das seguintes décadas do século XVII foram as que se podem ver na tabela seguinte.

No Anexo poderão a indicação dos registos de óbitos de onde esta informação foi retirada.

A confraria do Espírito Santo, do lugar de Valverdinho.

A confraria de Santa Luzia, do Monte do Bispo.

Tabela mostrando por década onde surgem nos registos de óbito, referências explícitas a dádivas a essas confrarias

Destas confrarias, possuíam caixões na igreja matriz, referidos nos registos de óbito:

Almas, Nome de Jesus, Santíssimo Sacramento, Senhor e Senhora

A do Espírito Santo teria o seu caixão na capela de Valverdinho.

A de Santa Luzia na capela do Monte do Bispo.

A de São Sebastião, se bem que tivesse aqui um altar, não se encontrou referência a caixão. Possivelmente este estaria na capela dessa devoção, entretanto desaparecida. Esta capela, como refere António Borges na sua Monografia de Caria [2] devia-se situar relativamente perto da ponte com o mesmo nome, porventura perto da escola da Fonte do Ruivo.

 

Referências

[1] Borges, António Albuquerque – A última vontade – Morte e testamentos em Caria nos séculos XVII, XVIII e XIX; Edição do autor; 2021

[2] Borges, António Albuquerque – Monografia de Caria – Edição da Câmara Municipal de Belmonte; 2007

 

 

Anexo - Confrarias citadas de forma explícita nos registos de óbito por década

Nota 1: Há muitos mais registos de óbito a referir confrarias, mas repetem estas

Nota 2: Pelo menos teoricamente poderia haver outras confrarias, pois é muito frequente nos registos constar algo como: “… a todas as outras confrarias do lugar um meio de centeio”

Nota 3: Nas décadas finais há menos referências, pois os padres não as escreviam e remetiam para outros documentos; indicavam por exemplo: Dádivas às confrarias como consta do testamento…

 

Entre parêntesis a data dos registos de óbito tidos em conta

1630 – (5/12/1630) Santíssimo Sacramento; Nossa Senhora do Rosário; Nome de Jesus; São Marcos

1640 – (30/9/1641; 18/12/1641; 12/6/1643; 22/1/1645) Almas; Senhor; Senhora; Espírito Santo; Nome de Jesus; São Marcos; Santa Luzia; São Sebastião; Santíssimo Sacramento

1650 – (9/10/1650; 11/10/1651; 11/3/1654) Senhor; Senhora; Santa Luzia; Santíssimo Sacramento; Espírito Santo; Santo Nome de Jesus; São Sebastião; Almas; São Marcos

1660 – (25/2/1660; …/9/1664) Senhor; Senhora; Almas; Nome de Jesus; Santa Luzia; Espírito Santo; São Sebastião; São Marcos

1670 – (21/5/1672; 25/4/1679) Senhor; Senhora; Almas; Espírito Santo; São Sebastião; São. Marcos; Nome de Jesus; Santa Luzia

1680 – (9/6/1680) Senhor; Senhora; Almas; Espírito Santo

1690 – (29/4/1696) Almas;

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