Quadro com uma cena imaginada tendo como base o sétimo registo desta publicação
Procurou-se situar a imagem junto à igreja, assumindo que teria chegado pelo caminho antigo que atualmente passa ao lado do cemitério
Imagem gerada pela plataforma DeeVid AI
Na continuação de duas publicações anteriores, apresento uma terceira e última, relativa a registos de óbitos que considerei serem curiosos, de pessoas que faleceram em Caria, mas que estavam de passagem.
22/3/1735 -Manuel Fernandes Maçal, com a idade aproximada de 45 anos, natural de Caria, casado com Domingas Nunes, casou em Elvas onde era morador. Faleceu em este lugar de Caria vindo a seus negócios. Recebeu o sacramento da penitência e extrema unção e não recebeu o da eucaristia por não poder comungar. Não fez testamento. Foi sepultado na igreja.
Neste caso é um Cariense que passou a fazer vida noutra terra. Estava de passagem na sua terra. Que negócios vinha fazer, não sabemos. A referência a “não poder comungar” decorria decerto de uma infeção grave na garganta que o impedia de deglutir. Quando uma infeção atacava, o sofrimento podia ser enorme e apenas as defesas naturais podiam levar ao milagre da cura…
14/10/1744 - Domingos Rodrigues … um pobre que vinha das Caldas de S. Pedro do Sul com carta de guia a qual dizia se chamava Domingos Rodrigues e que era da vila de Alpedrinha homem de pouca barba e segundo o que mostrava parecia ter de idade perto de quarenta anos e recebeu somente o sacramento da extrema unção. Sepultado no adro.
Viria este caminhante de algum tratamento nas Caldas de S. Pedro do Sul? Possivelmente…
4/12/1744 … se achou morto na tapada de Domingos Garcia deste lugar um peregrino cujo nome se não soube e só se disse que era natural da Vila da Covilhã filho natural de Pedro [Pessoa] da mesma Vila teria de idade trinta e cinco anos pouco mais ou menos segundo o que parecia homem de bastante barba e de [acentuada] estatura tinha um capote de pano [verdoso entre fino e Já zezado]
Um peregrino, que pela descrição não conseguimos saber se estaria quase a chegar à sua terra, Covilhã, ou teria de lá partido há pouco, quem sabe, em busca de um milagre de uma cura…
16/11/1760 … um homem que aparentava cerca de 55 anos… faleceu com os sacramentos da penitência e da extrema unção por se achar de repente em um palheiro de Manuel Fernandes Ferro na Rua da Cancela deste lugar. De estatura ordinária, magro, os dentes grandes, cabelo corredio, cara comprida, vestido em uns pobres fatos e não se lhe achou coisa alguma constando que se tinha confessado uns dias antes de falecer ao Reverendo Manuel Francisco Crespo cura desta igreja e eu lhe levei a extrema unção a chamado do barbeiro Manuel Antunes Ramos, [ele assistiu até expirar]; Não se soube de onde é, porém por informação que há se diz ser da vila de Touro, da Cidade da Guarda, para onde se tem feito as diligências e caso que apareça alguma notícia da sua naturalidade se apontará. Foi envolto em um lençol e sepultado à porta principal desta Igreja de Caria da parte de fora, junto à cruz da Via Sacra, da parte do Evangelho.
Temos uma descrição física bastante detalhada e a localização do local onde foi encontrado é conhecida.
O alerta dado pelo barbeiro, poderá decorrer de que os barbeiros nesta época prestavam serviços de saúde e talvez tenha tentado auxiliar o homem por essa razão.
1/8/1761… Um homem que aparentava cerca de 70 anos… se achou morto no lugar, ou ao Pinheiral, indo para Peraboa, porém no distrito deste lugar de Caria, um homem chamado Domingos Martins viúvo que se diz ser natural da vila de Castelo Novo, o qual tinha estado neste lugar havia poucos dias em casa de João Esteves Figueira Caroço, e me informei com o dito, que me disse, lhe tinha dito o dito defunto, por já andar molestado, que havia pouco se tinha confessado, e que saindo deste lugar a ir ver-se com uma sua irmã que assistia por caseira na Quinta do Corges, que é do Diogo José Capitão Mór da dita Vila de Castelo Novo, sem dúvida faleceu de repente com a queixa que já levava.
Note-se o detalhe da referência a ter-se confessado há pouco tempo, condição essencial para salvação da alma…
8/4/1767 …(sem nome) se achou morto na Quinta do Monte do Bispo… em uma corte de José Pires Correia e sem ter recebido sacramento algum, um homem que parecia andava mendigando e se lhe não sabe o nome; porém por informações que me deram se diz ser do lugar de São Paio termo da Vila de Gouveia, do qual também me informaram, vinha do Alentejo, e que o não quiseram receber no Hospital de Penamacor e não há por ora mais informação alguma; terá o dito defunto de maior idade em trajos de pobre, e dos fatos mui [consumptos]; Se se acharem mais notícias se apontarão aqui. Foi envolto em um lençol e sepultado na Igreja Matriz deste lugar de Caria e dentro dela.
Note-se que a “corte” em que foi encontrado, refere-se possivelmente a um estábulo.
11/10/1768 …um forasteiro … de idade de cinquenta e cinco anos, como constou pelos papéis que se lhe acharam, João Gonçalves, nos quais dizia ser casado, e natural da Vila de Olivença da Província do Alentejo, o qual vinha de Romagem de Santiago de Galiza, e adoecendo no Hospital da Cidade da Guarda, dele trazia a sua Carta de Guia, que apresentou ao Provedor da Irmandade das Almas deste Lugar de Caria que o remeteu ao [Tesoureiro] da dita Irmandade João Álvares Juiz Ordinário deste mesmo Lugar para tratar dele, e o recolheu para uma sua Corte aonde faleceu, e foi sepultado na Igreja Paroquial deste mesmo Lugar; e não se lhe achou coisa alguma mais que os pobres vestidos que trazia, e a dita Carta de Guia, da Mesa da Santa Casa da Misericórdia da dita Cidade da Guarda e um passaporte do Escrivão da Câmara da dita Vila de Olivença sua Pátria, passado pelo Escrivão da Câmara João de ... e assinado pelo Doutor Juiz de Fora da dita Vila João António Inácio Rosa [Gi...]
Neste caso temos um peregrino que regressava da romagem a Santiago de Compostela. Seguiria para Olivença. Passaria em Caria um dos “caminhos de Santiago”.
Ficamos a saber o nome do tesoureiro da confraria da Irmandade das Almas, e qual a sua profissão… seu nome João Álvares e era Juiz Ordinário.
À semelhança do referido num registo anterior a “corte” em que foi recolhido, seria um estábulo… não teve grande apoio o peregrino…
Vagabundo, com Bula da Cruzada
22/10/1779 …se achou um homem morto em uma palheira, ao qual se lhe achou na algibeira um escrito. De [Confissão], que dizia ser desobrigado dos preceitos da Quaresma de presente ano = Domingos Marques da Vila de [Bem] Santo, freguesia de São Pedro de [Lota], Bispado de Viseu; e o mesmo constava de uma Bula da Cruzada, que consigo trazia; teria de idade setenta anos, pouco mais ou menos; estatura ordinária, cara comprida, barba e cabelo ruço, e a cabeça até ao meio calva, capa de saragoça muito rota, com [uma sobrecabeça]. Foi sepultado no adro. Vagabundo.
A Bula da Cruzada atestava que o possuidor tinha direito a indulgências ou dispensas de algumas obrigações religiosas, como por exemplo jejuns, por ter contribuído financeiramente de forma significativa para a Igreja, ou por ter participado em iniciativas militares contra os “infiéis”.
19/10/1839 …Aos dezanove dias do mês de outubro… se achou morto um homem somente do meio para baixo por estar já comido dos bichos, cujo nome e terra se não sabe, está sepultado no adro desta freguesia de Caria, por se achar no sítio das Ferrarias limite desta freguesia.
Neste caso o registo é mórbido e lacónico. A referência “comido dos bichos”, neste caso de que o corpo estaria incompleto, diria respeito possivelmente a animais de grande porte, como lobos.