Quadro com uma cena imaginada tendo como base o segundo registo desta publicação
Procurou-se situar a imagem na Rua do Forno
Imagem gerada pela plataforma DeeVid AI
Na continuação de uma publicação anterior em que apresentei alguns registos de óbitos de pessoas que faleceram em Caria, mas que estavam de passagem, mostro agora mais alguns que considero curiosos.
5/2/1694 … um homem pobre, que andava a pedir, e dizia ser da vila de Penamacor, de mediana estatura, cabelo preto mais branco, e parecia ser de idade de cincoenta e cinco anos pouco mais ou menos e por informação do padre Manuel Lourenço Carracão cura da igreja das Inguias se chamava [Antão] Rodrigues o Leigo da dita vila de Penamacor, o qual ele [dito] Padre conhecia por ser seu vizinho no tempo que assistia na dita vila, e disse mais era casado e tinha filhos. Está sepultado no adro junto da porta principal.
Salientaria apenas o facto de o cura das Inguias estar possivelmente de visita a Caria e conhecer por acaso o falecido.
28/2/1701 … um homem que andava [vendendo especias] em companhia de outro que disse se chamava João Ferreira de nação Catalã e que o defunto se chamava Manuel Francisco natural da vila de Castelo Novo e que dizia era solteiro e que teria [ao parecer que ... seria] cinquenta anos de estatura meã a cor da cara [ruiva], calvo da cabeça os olhos algum tanto [azuis] já sem dentes e foi sepultado dentro da igreja matriz...
Neste caso estamos perante um vendedor ambulante, almocreve, que em conjunto com outro companheiro catalão venderia especiarias. “Especias” é uma denominação equivalente.
7/12/1703 Aos sete dias de Dezembro de setecentos e três anos faleceu da vida presente na estalagem de João Fernandes deste lugar de Caria Bispado da Guarda sem sacramento algum por o não pedir, nem se saber necessitava deles, um homem cujo nome se não soube que dizia ser natural de Nisa do Alentejo que demonstrava pelas muitas cãs que tinha na barba e cabeça ser de sessenta anos e vinha tosquiado alto do corpo e bem disposto, e os olhos como branco o qual andava na companhia de um almocreve vendendo sardinhas e dizia lhe pagava o dito trabalho o tal almocreve a três vinténs por dia e também se não sabe o nome do almocreve e publicava o dito velho que uma besta lhe dera um coice em uma virilha de que não fazia muito caso e morreu de repente e se não sabe se foi do dito coice ou de que infermidade, não trazia papéis, nem eu pude descobrir mais sinais para conhecer-se do que estes por informação da estalajadeira e de pessoas que conversavam com o dito velho, o qual foi enterrado em o Adro da Igreja deste dito lugar em presença de mim o Prior dela Pedro Álvares Cabral. Disse-lhe a missa de presente por amor de Deus.
Neste caso temos um registo picaresco, bastante detalhado.
Vendia sardinhas, que deviam ser fresquíssimas…
“Vinha tosquiado” significaria que estava com o cabelo e a barba bem cortados.
“Alto do corpo e bem disposto”, este “bem disposto” significa que tinha uma boa compleição física.
Ficamos também a saber qual era o valor da jorna para este serviço, três vinténs ao dia…
Na anterior publicação era referido o estalajadeiro Vicente Soares. Agora surge a “estalagem de João Fernandes”.
15/8/1704 … faleceu da vida presente na estalagem de Domingos Antunes Neto neste lugar de Caria… um homem que dizia ser morador no lugar de Cavadoude termo de Celorico e que era casado e chamavam Alexandre Martins o qual era alto do corpo e magro e da cor morena o cabelo negro e representava ter de idade trinta e cinco anos e trazia uma mula sem carga e foi sepultado dentro da igreja deste dito lugar e não se lhe achou testamento.
Mais uma estalagem referida, agora de “Domingos Antunes Neto”.
5/11/1705 ... um homem cujo nome se não sabe, era de boa estatura, ruivo, e disse ser homem casado, e do partido de Chaves e dele se não conheceu mais. Não fez testamento. Sepultado no adro da igreja.
“Do partido de Chaves” significa ser daquela região.
23/10/1711 Foi achado morto no sítio que chamam às Ferrarias limite deste lugar de Caria no Caminho que vai do lugar de Peraboa para o Monte do Bispo um homem no trajar muito pobre que representava ter de idade cinquenta anos, baixo do corpo, que se disse comumente era natural e morador do Casteleiro, termo de Sortelha e se chamava Manuel Luís, casado com Maria Jerónima e foi sepultado no adro da igreja. Não se lhe achou testamento.
Sendo de uma localidade próxima, houve quem o reconhecesse…
10/2/1722 Pedro Fernandes que disse ser casado com Catarina Alves natural do lugar de Prados termo de Bragança que vinha de ver um filho que morava as soldadas no lugar de Louriças termo da vila de São Vicente da Beira... que chamavam Manuel Fernandes era solteiro, o qual defunto parecia ter de idade [de] cinquenta anos de estatura mediana cabelo negro barba meia branca. Não fez testamento. Sepultado no adro da igreja.
Um pai que fizera uma longa caminhada para ver o filho, aqui faleceu…
29/8/1722 Um homem que disse se chamava Paulo Gomes, viúvo, natural de Oliveira do Conde, bispado de Viseu, morador na vila de Castelo Branco, jornaleiro, que vinha acompanhando umas presas que levava para o Aljube o Meirinho deste Bispado da Guarda, em casa de António Fernandes ferrador deste lugar o qual demonstrava ter de idade de quarenta e cinco anos, o rosto comprido e moreno, o cabelo corredio e negro, de mediana estatura. Não fez testamento. Sepultado no adro da igreja.
Esta descrição é muito curiosa. Estaria a acompanhar mulheres que estariam presas e que estavam a ser levadas para a cadeia do Aljube. Segundo explica a Wikipedia [1] o edifício do Aljube em Lisboa já era usado como cadeia pelos muçulmanos desde o século VIII. Terá sido depois da conquista cristã uma prisão para presos do âmbito eclesiástico, ou seja, para clérigos ou leigos que tivessem condutas consideradas imorais ou cometido crimes contra a fé. Poderiam por exemplo ser acusadas de bruxaria, ou serem cristãs-novas a quem alguém denunciou como executando práticas judaicas. Provavelmente iriam ser submetidas a interrogatório pela Inquisição ou Santo Ofício…
Na opinião de José Vargas, será contudo mais provável que se refira ao Aljube da Guarda, mencionado nas Constituições Sinodais de 1621.
Em jeito de conclusão
Estes registos de gentes que por cá faleceram estando de passagem, constituem interessantes relatos das suas épocas, em que viver implicava enfrentar riscos constantes, sobretudo a nível de doenças, e viajar ainda acrescentava maior risco. O facto de se referirem três estalagens, aparentemente distintas, sublinha a característica de Caria como local de passagem, cruzamento de caminhos, onde havia boas condições para retemperar o corpo e o espírito. A diversidade de situações é grande e permite-nos imaginar - viajar no tempo, neste encontro das gentes que em Caria viviam, com gentes que simplesmente por aqui passavam, outras que traziam mercadorias ou prestavam serviços que por cá não havia, mas decerto também traziam com elas histórias e relatos de outros lugares.
Todos eles ajudaram a moldar a nossa história comum.
Agradecimentos
Agradeço ao José Vargas por mais um precioso esclarecimento sobre o Aljube da Guarda.
Agradeço ao meu filho João Moura, por mais uma vez ajudar a fazer alguns acertos na imagem, que a plataforma de IA tinha relutância em fazer :-)
Referências
[1] – Cadeia do Aljube
