Barbeiros... mas não só... - 2

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Na publicaçãoanterior mostrei, a partir de informações dos registos de óbitos da nossa freguesia, como os barbeiros tiveram um papel ativo no registo de últimas vontades, mostrando que um número significativo destes profissionais possuía literacia.

Nesta publicação vou mostrar, tendo em conta a mesma base de registos, que também era frequente exercerem um outro papel bastante distinto, mas igualmente relevante, o de prestarem cuidados de saúde. É uma faceta bem conhecida dos historiadores, referida por exemplo por António de Oliveira Marques [1]. Porém, apesar de ser conhecida, cada caso retrata uma situação particular distinta e as suas leituras têm sempre a capacidade de nos permitir fazer viagens no tempo, neste caso na forma de cenas do quotidiano histórico da nossa terra.

Como a documentação se refere a registos de óbito, não será de espantar que surjam em alguns casos referidos em contextos que não terão sido bem-sucedidos, mas decerto que em muitas outras situações os resultados terão sido bons, à luz das condições e conhecimentos da época.

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O primeiro registo neste âmbito que identificámos, data de 19/7/1753. Refere o falecimento de José Fernandes Morcela, viúvo. E lamenta não ter podido ministrar todos os sacramentos dos defuntos…

Faleceu somente com o sacramento da penitência por a pressa não dar lugar a receber os mais… por o barbeiro Manuel da Cruz o [sangrar] sem o mandar sacramentar e lhe dar uma bebida de que morreu o condenei em dois mil réis...

Ou seja, estaria a ser feita uma sangria pelo barbeiro Manuel da Cruz, a qual não correu bem e não foi chamado a tempo.

É curioso constatar que o pároco, de seu nome João Rodrigues da Cruz, tinha o poder de lhe ministrar uma multa…

O que era uma sangria? Era um procedimento “médico” que surgiu na antiguidade clássica e que se baseava em princípios defendidos por Hipócrates [2], segundo os quais, para que fossemos saudáveis, era necessário que os quatro humores do nosso corpo estivessem em equilíbrio. Um desses humores, o mais relevante era o sangue. Decorria desta argumentação que faria bem à saúde sangrar o doente, ou seja, fazer com que perdesse algum sangue. Esta prática durou até ao século XIX. Tendo em conta o que hoje sabemos, esta prática era errada e tinha fortes riscos para o doente, como por exemplo o de originar uma infeção. Contribuía para o enfraquecer. Mas não se pense que este ato era simples. Segundo António de Oliveira Marques [1], de acordo com manuais dessas práticas, era necessário conhecer as veias e saber quais as mais apropriadas para a época do ano. Em Março, por exemplo, seria preferível a “veia da cabeça”, no braço direito, recomendando-se que se tirassem apenas uns três dedos de sangue. Já em Abril, Maio e Outubro seria preferível a veia “arcal” do braço direito… Havia ainda que contar com as influências dos astros, sobretudo da lua… E convinha não esquecer e distinguir os dias favoráveis (fastos) dos desfavoráveis (nefastos), sendo que estes últimos se subdividiam em caniculares, infelizes e aziagos… 

Como se percebe não era nada fácil atuar de acordo com as condições mais favoráveis…

Mas prossigamos com mais registos.

A 12/2/1756, outro padre, Gervásio Pereira Campos, regista o óbito de Francisco Pais, também viúvo, com cerca de 60 anos. Escreveu:

Faleceu com o sacramento da penitência somente, por causa de dizerem os barbeiros não era perigo a doença.

Note-se que se refere o plural, ou seja, intervieram pelo menos dois barbeiros. Mas desta vez o pároco não os penalizou!

Pouco tempo depois, a 18/9/1756, falece António de Lima com cerca de 30 anos. O mesmo padre, refere:

Faleceu com o sacramento da penitência subconditione e da extrema unção somente por causa de acidente de estupor, sendo chamado à pressa pelo barbeiro Vicente Fenandes Serveira.

A palavra “acidente” neste caso significa um problema de saúde súbito. O termo “estupor” refere-se a ter ficado inanimado ou quase sem sentidos.

O termo “subconditione” colocava-se quando surgissem dúvidas de que se pudesse aplicar devidamente o sacramento, o que neste caso se compreende, pois a pessoa terá ficado inconsciente pelo menos de forma parcial.

A 16/11/1760, o mesmo padre refere o óbito de alguém cujo nome não soube, mas que descreve com algum detalhe, bem como o contexto em que o seu falecimento ocorreu.

Faleceu com os sacramentos da penitência e da extrema unção por se achar de repente em um palheiro de Manuel Fernandes Ferro na Rua da Cancela deste lugar, de idade de cinquenta e cinco anos pouco mais ou menos. De estatura ordinária magro, os dentes grandes, cabelo corredio cara comprida, vestido em uns pobres fatos e não se lhe achou coisa alguma constando que se tinha confessado uns dias antes de falecer ao Reverendo Manuel Francisco Crespo cura desta igreja e eu lhe levei a extrema unção a chamado do barbeiro Manuel Antunes Ramos, [ele assistiu até expirar]; Não se soube de onde é, porém por informação que há se diz ser da vila de Touro, da Cidade da Guarda, para onde se tem feito as diligências e caso que apareça alguma notícia da sua naturalidade se apontará. Foi envolto em um lençol e sepultado à porta principal desta Igreja de Caria da parte de fora, junto à cruz da Via Sacra, da parte do Evangelho.

Seria alguém que estava de passagem. Ter-se-á sentido mal e alguém chamou o barbeiro Manuel Antunes Ramos para o tentar tratar.

A 5/1/1764, o mesmo padre Gervásio Pereira Campos, regista o óbito de Rosária Gomes a da Gil, casada com Domingos Fernandes Correia. E escreve:

Faleceu apressadamente e de parto sem sacramentos por não [avisar o barbeiro] José António deste lugar com a diligência que devia [por a ver] semelhantes perigos de morte como se reputa no presente caso.

Estamos, neste caso, perante um drama infelizmente frequente nesta época, em que muitas mulheres morriam de parto. Note-se que mesmo neste contexto tão particular fora chamado um barbeiro, neste caso João António…

O último registo que temos neste âmbito data de 14/10/1770, sendo escrito pelo mesmo padre. Regista o falecimento de Bernardo José de Albuquerque, com cerca de 40 anos.

Faleceu com todos os sacramentos. Casado com Maria Lopes da Conceição natural do Teixoso. Assistentes neste lugar e dele foram para a Quinta de Lamaçais que hoje é de José de Sousa Osório Cabral [Machado] e de sua mulher Dona Maria Angélica Rosa de Sousa Osório... diante de muitas pessoas da dita quinta e deste lugar como foi Manuel Antunes Ramos barbeiro, que lhe assistiu na sua enfermidade e do Reverendo Padre Cura do Teixoso, que também lhe assistiu na sua morte, disse que queria ser sepultado na Igreja Paroquial deste Lugar... envolto em um hábito de São Francisco.

Neste caso interveio o barbeiro Manuel Antunes Ramos, já referido antes.

Este registo tem também a curiosidade de nos indicar quem eram os proprietários da Quinta de Lamaçais.

 

Por curiosidade, faço aqui um exercício de correspondência entre estes barbeiros com atuação “médica” com os referidos na publicação anterior, de barbeiros que escreveram a última vontade de alguém.

Manuel da Cruz (1753) – Será possivelmente “Manuel Cruz Costa” que no mesmo ano redigiu um texto para [João] Martins? Provavelmente será o mesmo, mas sem certeza.

Vicente Fenandes Serveira (1756) – Com o mesmo nome redigiu 6 textos entre 1728 e 1767.

Manuel Antunes Ramos (1760 e 1770)- Com o mesmo nome escreveu 21 textos entre 1753 e 1780.

José António (1764) – Com o mesmo nome é referido em 3 registos entre 1760 e 1762.

Conclui-se que a generalidade destes profissionais "médicos" sabiam ler e escrever e tiravam partido dessas competências.

 

Em jeito de conclusão

Os barbeiros, pelo menos desde a idade média até meados do século XIX, prestavam serviços diversos, para lá dos básicos cuidados de cortes de barba e cabelo. Não era raro saberem ler e escrever, pelo que intervinham frequentemente na redação de últimas vontades. Mas tinham também frequentemente competências “médicas”, sabendo por exemplo fazer pequenas cirurgias, complementando os trabalhos de médicos e cirurgiões, ou mesmo substituindo-se a eles por não os haver, ou cobrarem preços que não estivessem ao alcance das gentes do povo. Claro que decerto também possuiriam conhecimentos tradicionais, sobre ervas, chás, mezinhas, emplastros, etc, que com a sempre presente ajuda de rezas e invocações de santos ou espíritos benfazejos permitiam complementar os efeitos curativos desejados…

Por último, realço que estes relatos mais detalhados, em que nos surgem barbeiros como “intervenientes médicos” são raros, devendo-se essencialmente ao maior empenho de alguns poucos padres que procuraram descrever mais em detalhe o que tinha sucedido. No caso presente, devemos este conhecimento aos padres João Rodrigues da Cruz e Gervásio Pereira Campos.

 

Referências

[1] Marques, António Henrique Rodrigo de Oliveira – A sociedade medieval portuguesa, Livraria Sá da Costa Editora, 5ª edição, 1987

[2] Museu da Farmácia – Sabia que… durante muitos séculos, as sanguessugas desempenharam um papel importante na medicina?

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