Quadro com uma cena imaginada do Solar Quevedo Pessanha por volta de 1700
Imagem gerada pela plataforma DeeVid AI
Como expliquei em publicações anteriores, o levantamento dos registos paroquiais de Caria, referentes a óbitos, revelaram-se como uma experiência muito enriquecedora e de constante aprendizagem. Com frequência fui surpreendido com informações e factos que nos permitem sentir de forma mais completa o nosso passado, pois de certa forma estamos a ler relatos de gentes que eram nossos antecessores, vivendo neste espaço que também é nosso, com as mesmas forças e fragilidades da nossa natureza humana.
Esta publicação em particular baseia-se em dois simples registos, de duas mulheres que faleceram em Caria. A Teresa em 1702, e a Maria da Silva em 1753.
Tinham algo em comum…
Ambas eram escravas…
A 22/2/1702 encontramos o primeiro desses registos de óbito, de Teresa. Diz o seguinte: Aos vinte e dois dias do mês de fevereiro de mil setecentos e dois anos faleceu da vida presente Teresa escrava de Manuel Homem Teixeira morador neste lugar de Caria termo da Covilhã e foi sepultada dentro da igreja deste dito lugar aonde eu o Padre Cura dela fiz este assento o Padre Manuel Pires Soares que o escrevi

A informação não nos permite fazer mais pesquisas sobre a Teresa. Podemos presumir ser solteira, pois não lhe é atribuído apelido. Não sabemos quais os serviços que prestava ao seu “dono”. Não sabemos a sua etnia ou simplesmente a “cor”, se bem que possamos presumir que fosse negra, como o era a grande maioria dos escravos na época, chegados sobretudo de África, da região do Golfo da Guiné.
Mas podemos melhor conhecer quem era Manuel Homem Teixeira, com base nos registos paroquiais e alguma informação complementar que foi possível recolher. Manuel Homem Teixeira era o proprietário do solar Quevedo Pessanha.
Com base em registos de batismo que refiro adiante, sabemos que Manuel Homem Teixeira era natural de Castelo Mendo (Almeida). Era casado com Maria de Mesquita de Távora, natural de Caria. Era filho de Jerónimo Teixeira Cabral, natural de Pinhel, e de Maria Teles de Matos, natural como ele de Castelo Mendo.
A esposa Maria de Mesquita de Távora, era filha de António Monteiro de Távora, natural da Nave (Sabugal) e de Maria Gomes de Azevedo, natural do Souto (Sabugal). Eram os senhores do solar Quevedo Pessanha.
Não casaram em Caria, pois não constam nos nossos registos.
Mas tiveram em Caria 3 filhos, António (1706), Alexandre (1708), Bernarda (1714)
Por seu lado faleceram em Caria os seguintes filhos:
· Leonarda com 12 anos, refere ser natural de Caria mas não surge nos registos de batismo, falecida em 1719;
· Josefa sem indicação de idade, refere ser natural de Caria mas não surge nos registos de batismo, falecida em 1721;
· Bernarda com 8 anos, já atrás referida, falecida em 1722;
· Manuel Homem Teixeira (mesmo nome do pai), solteiro, faleceu em Caria, a 30/1/1734, com 34 anos; Fez testamento;
· Maria [Teles], falecida em 1739; Fez testamento.
A imagem desta publicação pretende mostrar Manuel Homem Teixeira em bébé, o primeiro dos irmãos.
Manuel Homem Teixeira faleceu em Caria em 10/7/1718. Não se indica a idade. De acordo com o registo de óbito não fez testamento.
A esposa Maria de Mesquita e Távora faleceu em Caria com 62 anos, a 3/8/1732. De acordo com o registo de óbito não fez testamento.
É curioso que em ambos os casos, se refira que não fizeram testamento quando eram claramente grandes proprietários. Possivelmente já teriam feito as partilhas antes do seu falecimento. Na verdade, por informação que foi gentilmente disponibilizada por um familiar, sabemos que a família detinha muitas propriedades não apenas em Caria. Por exemplo em Almeida, Belmonte, Castelo Mendo, Castelo Branco, Celorico, Covilhã, Fundão, Guarda, Lisboa, Pinhel, Porto…
Note-se por último que a Teresa foi enterrada na igreja. Esse era o local de sepultura mais comum, pois era considerado o chão mais sagrado. Porém algumas pessoas eram sepultadas no adro, espaço que sendo também considerado chão sagrado, era entendido como menos digno. Em outras publicações poderei mostrar exemplos dessa realidade, por exemplo em situações de pessoas muito pobres ou que estavam de passagem.
Vejamos agora o segundo registo no âmbito desta publicação.

A 3/12/1753 surge o registo de óbito de Maria da Silva, o qual refere: Faleceu somente sendo absolvida condicionalmente com o sacramento da extrema unção por quando chamaram para a sacramentar ter perdido a fala e sentidos, Maria da Silva solteira escrava de Tomé da Silva deste lugar a quem pela omissão condenei em quinhentos réis. Foi sepultada na igreja deste lugar em sepultura da Fábrica da mesma.
Aqui temos um pouco mais de detalhe. Sabemos que era solteira, mas quanto às dúvidas anteriores são as mesmas. Curioso ter o apelido do "dono", talvez uma marca de posse.
Note-se a curiosidade de que neste caso o pároco multa o “dono” por não o ter chamado a tempo para lhe ministrar todos os sacramentos devidos.
Note-se ainda a segunda curiosidade de a Maria da Silva ter tido uma “absolvição condicional”, situação prevista pela Igreja, para os casos em que a pessoa não se encontra já totalmente consciente.
Pelas mesmas razões da Teresa, não conseguimos obter mais informações da Maria da Silva.
Mas podemos ter um melhor retrato de quem era Tomé da Silva.
Faleceu em Caria a 3/12/1762 com cerca de 60 anos. No seu registo de óbito refere-se que era natural do Baraçal, Guarda, faleceu com todos os sacramentos e fez uma disposição pia de missas por mão de José António Gomes barbeiro. Foi sepultado na igreja envolto em hábito de São Francisco. Refere ainda o registo que a esposa, Joana Luís, era natural de Caria.
Note-se que nestas épocas ninguém se preocupava em saber a sua idade ou dos outros. As idades indicadas eram na sua grande maioria aproximadas. Muito menos se assinalava o aniversário! É comum o uso da expressão “pouco mais ou menos”…
Mas continuemos com as verificações. De facto, nos registos de casamento constatamos que casaram em Caria a 12/12/1744, ou seja, ele teria cerca de 42 anos.
O nome dele surge no registo de casamento mais completo, como sendo Tomé da Silva Nabais e [Camejo]. Refere ser filho de Tomé Gonçalves e de Ana Gonçalves [Camejo], ambos também naturais do Baraçal.
A esposa, Joana Luís era filha de José Luís e Maria Garcia, ambos naturais de Caria.
Curiosamente, o pai da noiva era padre, o Padre José Luís...
Nos registos de nascimento constam 7 filhos nascidos em Caria
Maria (1746), José (1749), Cipriano Tomás (1752), Maria (1755), Francisco (1757), Ana (1760), Maria Joana do Nascimento (1762).
Curiosamente nos registos de óbito apenas encontrei a Ana, falecida em 1768. Os filhos terão ido para outras terras.
Nos registos de casamento surge um casamento de um Francisco em 1798, filho de um Tomé da Silva, mas refere o nome da mãe como sendo Joana Rodrigues, ou seja o apelido da mãe não é o mesmo, pelo que apenas com base nesta informação fica a dúvida…
Mas nos registos de batismo surgem dois batismos, de Joaquim e Isabel Felismina, em que o pai é referido como Francisco Luís da Silva e Francisco da Silva, respetivamente. A mãe, Maria Rita da Costa, de Caria. Os avós paternos são Tomé da Silva e Joana Luísa (note-se que Joana Luís passou a Joana Luísa, o que é comum). Os avós maternos correspondem aos pais da noiva do casamento anterior, o que confirma que se trata mesmo do filho nascido em 1757.
Ou seja, Tomé da Silva e Joana Luís (ou Luísa) deixaram descendência em Caria.
Em jeito de conclusão
Depois de uma primeira reação de surpresa, percebe-se que a ocorrência destes registos referindo escravas não é totalmente inesperada. Faziam parte da estrutura social. O número destas situações, duas, é bastante baixo, o que leva a supor que nesta região fosse uma prática pouco usada, talvez devido a haver suficiente mão de obra local, paga em jornas de miséria. Os dois casos são de mulheres e não de homens. Poderiam ser em ambos os casos para prestar serviços domésticos a gente abastada, como sinal de prestígio.
Infelizmente não dispomos de mais dados sobre estas duas mulheres, para lá do seu nome, mas aqui fica uma breve referência à sua passagem, contribuindo através deste seu desafortunado papel para a construção do nosso passado.
Agradecimentos
Agradeço ao senhor Alexandre Quevedo a disponibilização da seguinte fotografia, a qual foi a base da elaboração da imagem que ilustra esta publicação.
A composição procurou situar a imagem em 1700 (Teresa faleceu em 1702). Vemos uma cena imaginada com Maria Mesquita de Távora, então com cerca de 30 anos, tendo ao colo o filho Manuel Homem Teixeira, com poucos meses, o qual tinha o mesmo nome do pai, que surge representado a fumar tabaco. Note-se que há registos de óbito em que refere o comércio de tabaco em Caria, mas isso ficará para próximas publicações...
